Estamos acompanhando com bastante cobertura da mídia, às vezes de forma sensacionalista, o recente terremoto no Japão e todas as suas consequências. Ainda é muito cedo para se ter a noção exata da dimensão do desastre. As estimativas ainda são preliminares, sejam sobre fatalidades, desaparecidos, danos materiais, vazamento radioativo, perdas econômicas, custos de reconstrução, etc.

Porém, após poucos dias da ocorrência do terremoto, a comunidade de Continuidade de Negócios já está mobilizada, avaliando o que pode e precisa ser melhorado nas boas práticas de Continuidade de Negócios, principalmente quando se trata de eventos de grandes dimensões como este.

O Japão, um país desenvolvido, é bastante consciente dos riscos naturais, tecnológicos e humanos a que está sujeito. Trabalha fortemente na Prevenção: desenvolveu tecnologias de construção civil de forma a minimizar os danos causados por terremotos; realiza exercícios nacionais de resposta a terremotos duas vezes ao ano; as crianças são ensinadas desde pequenas a reagirem adequadamente às emergências; as empresas também têm os seus Planos de Resposta e realizam exercícios frequentes de abandono do local de trabalho; dentre outras, que colocam o Japão como um país com um grau alto de maturidade em prevenção de desastres.

Várias são as lições aprendidas, de práticas ou procedimentos que deram certo, à práticas que precisam ser revistas de forma a reduzir ainda mais, no futuro, as consequências dos desastres.

Lições aprendidas:

  1. Acreditar que um desastre fora do nosso controle pode acontecer e investir na sua prevenção;
  2. Investir na conscientização e treinamento das pessoas, de forma a saberem como prevenir e responder adequadamente em situações de emergências;
  3. Inserir esta conscientização em todos os níveis da sociedade, famílias, empresas e governos;
  4. Realizar treinamentos constantes e realistas;
  5. Realizar reavaliações contínuas sobre as práticas e procedimentos vigentes buscando oportunidades de aperfeiçoá-las;

Lições que precisam ser revistas:

  1. Neste caso, o tsunami causou mais danos do que o terremoto.   Há a necessidade de se estudar melhor as consequências dos tsunamis e outros desastres de grandes proporções;
  2. Rastreio e contagem de pessoas desaparecidas, um problema conhecido desde os atentados às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e ainda pouco desenvolvido, através de uma central ativa de informações sobre o rastreamento de pessoas: quem está desaparecido; onde foi visto pela última vez; a que horas; em que condições físicas esta pessoa se encontrava?
  3. A segurança efetiva das usinas nucleares de geração de energia elétrica, seus sistemas de prevenção, proteção e redundância.   Torres de resfriamento de água deixarem de funcionar por falta de energia elétrica é no mínimo estranho.
  4. Colapso das comunicações: tanto neste caso, como no das Torres Gêmeas e outros desastres de grandes proporções têm ocorrido, sistematicamente, o colapso das comunicações, seja por excesso de demanda ou falhas na infra-estrutura: cabos rompidos; falta de energia elétrica; panes nas centrais de telefonia, etc.
    1. Além disto, devemos também considerar um eventual colapso das telecomunicações decorrente de uma “guerra cibernética”;
    2. Cadeia global de fornecimento (“global supply chain”): na economia globalizada dos dias de hoje, a indisponibilidade de um produto ou serviço em uma determinada região do globo, pode provocar consequências mais ou menos rápidas do outro lado do mundo, em questão de horas. Estes efeitos ainda são pouco avaliados.

Todos estes fundamentos podem ser encontrados na norma inglesa BS 25999, partes I e II, de Gestão da Continuidade de Negócios (NBR 15999 no Brasil) e várias destas lições a serem revistas estão sendo consideradas na norma ISO 22301, atualmente em consulta pública

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O manual de Boas Práticas de Gestão da Continuidade de Negócios desenvolvido pelo BCI – Business Continuity Institute(www.thebci.org), disponível em vários idiomas inclusive português, ilustra o ciclo de vida da GCN, conforme figura ao lado.

Ampliando o escopo de organização para nação, percebe-se claramente como estes fundamentos podem ser adaptados a todos os níveis de comunidades, incluindo governos federais, estaduais e municipais.

O que seria do Japão hoje, se estes fundamentos não estivessem tão bem desenvolvidos na sua cultura?

Sidney Modenesi, MBCI

Responsável no Brasil do BCI – Business Continuity Institute

Gerente Geral da STROHL Brasil